sábado, 7 de outubro de 2017

O que é o Espiritismo


"Não te indignes por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos que praticam a iniquidade." -( Salmos, 37: 1 )-




Amados irmãos, bom dia!
Somos chamados à perfeição assim como nosso Pai celeste o é, portanto, reflitamos  nas palavras do salmista e procuremos torná-las vivas em nós. 






Dos Espíritos

7. Os Espíritos não são, como supõem muitas pessoas, uma classe à parte na Criação, porém as almas, despidas do seu invólucro corporal, daqueles que viveram na Terra ou em outros mundos. Aquele que admite a sobrevivência da alma ao corpo admite, pelo mesmo motivo, a existência dos Espíritos; negar os Espíritos seria negar a alma.

8. Faz-se geralmente uma ideia muito errônea do estado dos Espíritos; eles não são, como alguns acreditam, seres vagos e indefinidos, nem chamas semelhantes a fogos-fátuos, nem fantasmas como os pintam nos contos das almas do outro mundo. São seres nossos semelhantes, tendocomo nós um corpo, mas fluídico e invisível no estado normal.

9. Quando a alma está unida ao corpo, durante a vida, ela tem duplo invólucro: um pesado, grosseiro e destrutível — o corpo; o outro fluídico, leve e indestrutível, chamado perispírito.

10. Há, pois, no homem três elementos essenciais:

1o - A alma ou Espírito, princípio inteligente em que residem o pensamento, a vontade e o senso moral;

2o - O corpo, invólucro material que põe o Espírito em relação com o mundo exterior;

3o - O perispírito, invólucro fluídico, leve, imponderável, servindo de laço e de intermediário entre o Espírito e o corpo.

11. Quando o invólucro exterior está usado e não pode mais funcionar, tomba e o Espírito o abandona, como o fruto se despoja da sua semente, a árvore da casca, a serpente da pele, em uma palavra, como se deixa um vestido velho que já não pode servir; é o que se designa pelo nome de morte.

12. A morte é apenas a destruição do envoltório corporal, que a alma abandona, como o faz a borboleta com a crisálida, conservando, porém, seu corpo fluídico ou perispírito.

13. A morte do corpo desembaraça o Espírito do laço que o prendia à Terra e o fazia sofrer; e uma vez libertado desse fardo, não lhe resta mais que o seu corpo etéreo, que lhe permite percorrer o espaço e transpor as distâncias com a rapidez do pensamento.

14. A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem; a alma e o perispírito separados do corpo constituem o ser chamado Espírito.

Observação: – A alma é assim um ser simples; o Espírito um ser duplo e o homem um ser triplo. Seria mais exato reservar a palavra alma para designar o princípio inteligente, e o termo Espírito para o ser semimaterial formado desse princípio e do corpo fluídico, mas como não se pode conceber o princípio inteligente isolado da matéria, nem o perispírito sem ser animado pelo princípio inteligente, as palavras alma e Espírito são, no uso, indiferentemente empregadas uma pela outra; é a figura que consiste em tomar a parte pelo todo, do mesmo modo por que se diz que uma cidade é povoada de tantas almas, uma vila composta de tantas famílias; filosoficamente, porém, é essencial fazer-se a diferença.




Estudo do Livro dos Espíritos



 




613. Embora de todo errônea, a idéia ligada à metempsicose não terá resultado do sentimento intuitivo que o homem possui de suas diferentes existências?

“Nessa, como em muitas outras crenças, se depara esse sentimento intuitivo. O homem, porém, o desnaturou, como costuma fazer com a maioria de suas idéias intuitivas.”

Seria verdadeira a metempsicose, se indicasse a progressão da alma, passando de um estado inferior a outro superior, onde adquirisse desenvolvimentos que lhe transformassem a natureza. É, porém, falsa no sentido de transmigração direta da alma do animal para o homem e reciprocamente, o que implicaria a idéia de uma retrogradação, ou de fusão. Ora, o fato de não poder semelhante fusão operar-se, entre os seres corporais das duas espécies, mostra que estas são de graus inassimiláveis, devendo dar-se o mesmo com relação aos Espíritos que as animam. Se um mesmo Espírito as pudesse animar alternativamente, haveria, como consequência, uma identidade de natureza, traduzindo-se pela possibilidade da reprodução materia.

A reencarnação, como os Espíritos a ensinam, se funda, ao contrário, na marcha ascendente da Natureza e na progressão do homem, dentro da sua própria espécie, o que em nada lhe diminui a dignidade. O que o rebaixa é o mau uso que ele faz das faculdades que Deus lhe outorgou para que progrida. Seja como for, a ancianidade e a universalidade da doutrina da metempsicose e, bem assim, a circunstância de a terem professado homens eminentes provam que o princípio da reencarnação se radica na própria Natureza. Antes, pois, constituem argumentos a seu favor, que contrários a esse princípio.
O ponto inicial do Espírito é uma dessas questões que se prendem à origem das coisas e de que Deus guarda o segredo. Dado não é ao homem conhecê-las de modo absoluto, nada mais lhe sendo possível a tal respeito do que fazer suposições, criar sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios Espíritos longe estão de tudo saberem e, acerca do que não sabem, também podem ter opiniões pessoais mais ou menos sensatas. É assim, por exemplo, que nem todos pensam da mesma forma quanto às relações existentes entre o homem e os animais.
Segundo uns, o Espírito não chega ao período humano senão depois de se haver elaborado e individualizado nos diversos graus dos seres inferiores da Criação. Segundo outros, o Espírito do homem teria pertencido sempre à raça humana, sem passar pela fieira animal. O primeiro desses sistemas apresenta a vantagem de assinar um alvo ao futuro dos animais, que formariam então os primeiros elos da cadeia dos seres pensantes. O segundo é mais conforme à dignidade do homem e pode resumir-se da maneira seguinte:
As diferentes espécies de animais não procedem intelectualmente umas das outras, mediante progressão. Assim, o espírito da ostra não se torna sucessivamente o do peixe, do pássaro, do quadrúpede e do quadrúmano. Cada espécie constitui, física e moralmente, um tipo absoluto, cada um de cujos indivíduos haure na fonte universal a quantidade do princípio inteligente que lhe seja necessário, de acordo com a perfeição de seus órgãos com o trabalho que tenha de executar nos fenômenos da Natureza, quantidade que ele, por sua morte, restitui ao reservatório donde a tirou. Os dos mundos mais adiantados que o nosso (ver nº 188) constituem igualmente raças distintas, apropriadas às necessidades desses mundos e ao grau de adiantamento dos homens, cujos auxiliares eles são, mas de modo nenhum procedem das da Terra, espiritualmente falando. Outro tanto não se dá com o homem. Do ponto de vista físico, este forma evidentemente um elo da cadeia dos seres vivos; porém, do ponto de vista moral, há, entre o animal e o homem, solução de continuidade. O homem possui, como propriedade sua, a alma ou Espírito, centelha divina que lhe confere o senso moral e um alcance intelectual de que carecem os animais e que é nele o ser principal, que preexiste e sobrevive ao corpo, conservando sua individualidade. Qual a origem do Espírito? Onde o seu ponto inicial? Forma-se do princípio inteligente individualizado? Tudo isso são mistérios que fora inútil querer devassar e sobre os quais, como dissemos, nada mais se pode fazer do que construir sistemas. O que é constante, o que ressalta do raciocínio e da experiência é a sobrevivência do Espírito, a conservação de sua individualidade após a morte, a progressividade de suas faculdades, seu estado feliz ou desgraçado de acordo com o seu adiantamento na senda do bem e todas as verdades morais decorrentes deste princípio.
Quanto às relações misteriosas que existem entre o homem e os animais, isso, repetimos, está nos segredos de Deus, como muitas outras coisas, cujo conhecimento atual nada importa ao nosso progresso e sobre as quais seria inútil determo-nos.




Que a graça e a paz sejam conosco!

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O que é o Espiritismo


"Há no meu íntimo um oráculo a respeito da maldade do ímpio: Aos seus olhos é inútil temer a Deus." -( Salmos, 36: 1 )-




Amados irmãos, bom dia!
Tudo é possível ao que crê, portanto, não sejamos como o ímpio, mas, sim procuremos interceder por ele a fim de que também possa viver na plenitude e assim, edificar sua reforma interior.





Noções elementares do Espiritismo

Observações preliminares

1.É um erro crer-se que basta a certos incrédulos o testemunho defenômenos extraordinários, para que se tornem convictos. Quem não admite no homem a existência da alma ou Espírito, também não a aceita fora dele; e, portanto, negando a causa, nega implicitamente os efeitos. Os contraditores se apresentam, quase sempre, com uma ideia preconcebida que os desvia de uma observação séria e imparcial, e levantam questões e objeções a que é impossível responder-se logo, de modo completo, porque seria preciso fazer-se, para cada um, uma espécie de curso, retomando as coisas desde o princípio.
O estudo prévio tem como resultado evitar-se essas objeções que, na maioria, se originam da ignorância das causas dos fenômenos e das condições em que estes se produzem.

2. Quem não conhece o Espiritismo, supõe que se podem produzir fenômenos espíritas, como se faz uma experiência de Física ou de Química. Daí a pretensão de sujeitá-los à sua vontade e a recusa de se colocar nas condições necessárias para os poder observar. Não admitindo, como princípio, a existência e a intervenção dos Espíritos, ou, pelo menos, não conhecendo nem a sua natureza, nem o seu modo de ação, esses indivíduos se comportam como se operassem sobre a matéria bruta; e, desde que não obtêm o que pedem, concluem que não há Espíritos. Colocando-se em um ponto de vista diferente, compreender-se-á que, não sendo os Espíritos mais que almas dos homens, todos nós, depois da morte, seremos Espíritos, e que, nestas condições, também estaríamos pouco dispostos a servir de joguete, para satisfação das fantasias dos curiosos.

3. Ainda que certos fenômenos possam ser provocados, eles, pelo fato de provirem de inteligências livres, não se acham absolutamente à disposição de quem quer que seja; e quem se disser capaz de obtê-los, sempre que queira, só provará ignorância ou má-fé. É preciso esperá-los, apanhá-los em sua passagem, e, muitas vezes, é quando são menos esperados que se apresentam os fatos mais interessantes e concludentes. Aquele que seriamente deseja instruir-se deve, nisto como em tudo, ter paciência e perseverança, e colocar-se nas condições indispensáveis; doutra forma, é melhor não se preocupar com isso.

4. Nem sempre as reuniões que têm por objeto tratar de manifestações espíritas se acham em boas condições, seja para obter resultados satisfatórios, seja para produzir a convicção; de algumas mesmo, não podemos deixar de convir, os incrédulos saem menos convencidos do que o eram quando entraram, lançando em rosto, aos que lhes falam do caráter sério do Espiritismo, as coisas, muitas vezes ridículas, de que foram testemunhas. Nisso não são eles mais lógicos que aqueles que pretendessem julgar de uma arte pelas primeiras provas de um aprendiz, de uma pessoa pela sua caricatura, ou de uma tragédia pela paródia. O Espiritismo também tem aprendizes; e quem quer esclarecer-se não deve colher ensinos de uma só fonte, porque só pelo exame e pela comparação se pode firmar um juízo.

5. As reuniões frívolas têm o grave inconveniente de dar aos noviços, que a elas assistem, uma ideia falsa do caráter do Espiritismo. Os que só têm frequentado reuniões dessa espécie, não podem tomar a sério uma coisa que eles veem tratada irrefletidamente pelos próprios que se dizem adeptos. Um estudo antecipado lhes ensinará a julgar do alcance do que veem, a separar o bom do mau.

6. O mesmo raciocínio se aplica aos que julgarem o Espiritismo pelo que dizem certas obras excêntricas que dele apenas dão uma ideia incompleta e ridícula. O Espiritismo sério não pode responder por aqueles que o compreendem mal, ou que o praticam de modo contrário aos seus preceitos; assim como não o faz a poesia por aqueles que produzem maus versos. É deplorável, dizem, que existam tais obras prejudicando a verdadeira ciência. Sem dúvida, seria preferível que só as houvesse boas; o maior mal, porém, consiste em não se darem ao trabalho de estudá-las todas. Todas as artes, todas as ciências, além disso, estão no mesmo caso. Não vemos, sobre as mais sérias coisas, aparecerem tratados absurdos e cheios de erros? Por que seria privilegiado, nesse sentido, o Espiritismo, sobretudo em seu começo? Se os que o criticam não tomassem as aparências por base do seu juízo, saberiam o que ele admite e o que rejeita, e não lhe lançariam em conta o que ele repele em nome da razão e da experiência.




Estudo do Livro dos Espíritos






612. Poderia encarnar num animal o Espírito que animou o corpo de um homem?

“Isso seria retrogradar e o Espírito não retrograda. O rio não remonta à sua nascente.” (118)




Que a graça e a paz sejam conosco!

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O que é o Espiritismo

 

"Defende-me, Senhor, dos que me acusam; luta contra os que lutam comigo." -( Salmos, 35: 1 )-




Amados irmãos, bom dia!
A paz que o Senhor dá aos que nele confiam, é a única e verdadeira que nos fortalece para enfrentar quaisquer situações. Busquemos, pois, caminhar com retidão no caminho do Senhor para vivermos a vida plena que ele nos oferece.






Padre. — Segundo os Espíritos, quem não crê neles nem nas suas manifestações, deve ser menos aquinhoado na vida futura?

A. K. — Se esta crença fosse indispensável à salvação dos homens, que seria daqueles que, desde o começo do mundo, não tiveram possibilidade de possuí-la, bem como daqueles que, durante ainda muito tempo, morrerão sem tê-la? Poderá Deus cerrar-lhes as portas do futuro? Não; os Espíritos que nos instruem não são assim tão pouco lógicos; eles nos dizem: Deus é soberanamente justo e bom, não faz a sorte futura do homem subordinar-se a condições alheias à vontade deste; eles não nos pregam que fora do Espiritismo não possa haver salvação, mas sim como o Cristo: Fora da caridade não há salvação.

Padre. — Permiti-me, então, dizer-vos que, desde que os Espíritos só ensinam os princípios de moral encontrados no Evangelho, não vejo qual possa ser a utilidade do Espiritismo, visto como antes que este viesse e hoje, sem ser por ele, podíamos e podemos alcançar a salvação. Não seria o mesmo se os Espíritos viessem ensinar algumas grandes verdades novas, alguns desses princípios que mudam a face do mundo, como fez o Cristo. Ao menos o Cristo era só, sua doutrina era única, ao passo que os Espíritos se contam por milhares e se contradizem, uns dizendo que é branco o que outros afirmam ser negro; do que resulta que, já desde o começo, seus partidários formam muitas seitas. Não seria melhor deixarmos os Espíritos tranquilos e contentarmo-nos com o que já temos?

A. K. — Errais, meu amigo, em não sair do vosso ponto de vista e em considerar sempre a Igreja como o único critério dos conhecimentos humanos. Se o Cristo disse a verdade, o Espiritismo não podia dizer outra coisa, e em vez de por isso apedrejá-lo, deve-se acolhê-lo como poderoso auxiliar, que vem confirmar, por todas as vozes de além-túmulo, as verdades fundamentais da religião, combatidas pela incredulidade. Que o materialismo o combata, explica-se facilmente, mas que a Igreja se ligue ao materialismo contra ele, é um fato menos concebível. Igualmente inconsequente é ela quando qualifica de demoníaco um ensino que se apoia sobre a mesma autoridade e que proclama a missão divina do fundador do Cristianismo.
O Cristo teria dito, teria revelado tudo? Não; visto que Ele próprio disse: “Eu teria ainda muitas coisas a dizer-vos, mas vós não podeis compreendê-las, é por isso que Eu vos falo em parábolas.”

O Espiritismo vem hoje, época em que o homem está maduro para compreendê-lo, completar e explicar o que o Cristo propositadamente não fez senão tocar, ou não disse senão sob a forma alegórica. Direis, sem dúvida, que à Igreja competia dar essa explicação. Mas qual delas? a romana, a grega ou a protestante? Como não estão elas de acordo, cada uma explicaria a seu modo e reivindicaria o privilégio de dar essa explicação. Qual delas conseguiria arrebanhar todos os dissidentes? Deus, que é sábio, prevendo que os homens iriam nela enxertar suas paixões e prejuízos, não lhes quis confiar o cuidado desta Nova Revelação: deu-a aos Espíritos, seus mensageiros, que a proclamaram por todos os pontos do globo, fora dos limites particulares de qualquer culto, a fim de que ela possa aplicar-se a todos, e nenhum a transforme em objeto de exploração. Por outro lado, os diversos cultos cristãos não se terão, em coisa alguma, apartado do caminho traçado pelo Cristo? Seus preceitos de moral serão escrupulosamente observados? Não se lhe têm desnaturado as palavras, a fim de que possam servir de apoio à ambição e às paixões humanas, quando elas lealmente condenam isso? Ora, o Espiritismo, pela voz dos Espíritos enviados de Deus, vem chamar, à estrita observância de seus preceitos, aqueles que dela se arredam; será por isso que o qualificam de obra satânica? Vós vos iludis dando o nome de seitas a algumas divergências de opiniões relativas aos fenômenos espíritas. Não é de admirar que no começo de uma ciência, quando ainda as observações eram incompletas para muitos, tenham surgido teorias contraditórias; essas teorias, porém, repousam sobre pontos de minúcias, e não sobre o princípio fundamental. Podem constituir escolas que expliquem certos fatos a seu modo, porém, não são seitas, como não o são os diferentes sistemas que dividem os sábios nas ciências exatas: em Medicina, em Física etc. Riscai, pois, a palavra seita, que é imprópria ao nosso caso.
A quantas seitas não tem o Cristianismo dado nascimento, desde a sua origem? Por que não teve bastante poder a palavra do Cristo para impor silêncio a todas as controvérsias? Por que é ela suscetível de interpretações que ainda hoje dividem os cristãos em diferentes igrejas, pretendendo todas elas possuir exclusivamente a verdade necessária à salvação, detestando-se intimamente e anatematizando-se em nome do seu divino Mestre, que não pregou senão o amor e a caridade? Fraqueza dos homens, direis vós. Seja; então, como quereis que o Espiritismo triunfe subitamente dessa fraqueza, transforme a humanidade como por encanto? 
Vamos à questão da utilidade. Dizeis que o Espiritismo nada revela de novo. É um erro: ele ensina, ao contrário, muito àqueles que não se limitam a um estudo superficial. Não fizesse ele mais que substituir a máxima: Fora da caridade não há salvação, que reúne os homens, àquela: Fora da Igreja não há salvação, que os divide, para que a sua vinda marcasse uma nova era à humanidade.
Dissestes que se podia passar sem ele; concordo, como também se podia passar sem muitas das descobertas científicas. Os homens certamente viviam bem, antes da descoberta de todos os novos planetas, antes que se tivesse calculado os eclipses, antes que se conhecesse o mundo microscópico e cem outras coisas; o camponês para viver e fazer germinar o trigo, não tem necessidade de saber o que é um cometa, e, entretanto, ninguém nega que todas essas coisas alargam o círculo das ideias e nos fazem compreender melhor as Leis da natureza.
Ora, o mundo dos Espíritos é uma dessas leis que o Espiritismo nos faz conhecer; ele nos ensina a influência que esse mundo exerce sobre o corpóreo. Suponhamos que a isso se limitasse a sua utilidade, já não seria muito a revelação de tal potência? Vejamos, agora, a sua influência moral. Admitamos que ele nada ensine, sob este ponto de vista; qual o maior inimigo da Religião? O materialismo, porque o materialista não crê em coisa alguma; ora, o Espiritismo é a negação do materialismo, que já não tem razão de ser. Não é mais pelo raciocínio, pela fé cega que se diz ao materialista que nem tudo se acaba com o corpo; é pelos fatos que se lhe mostram visíveis e palpáveis. Não será isso um pequeno serviço prestado à humanidade e à Religião? Porém, não é ainda tudo: a certeza da vida futura, o quadro vivo daqueles que nos precederam nela, mostram a necessidade do bem e as consequências inevitáveis do mal. Eis por que, sem ser uma Religião, o Espiritismo se prende essencialmente às ideias religiosas, desenvolve-as naqueles que não as possuem, fortifica-as nos que as têm incertas.
A Religião encontra, pois, um apoio nele, não para as pessoas de vistas estreitas, que a veem integralmente na doutrina do fogo eterno, na letra mais que no espírito, mas para aqueles que a veem segundo a grandeza e a majestade de Deus.
Em uma palavra, o Espiritismo engrandece e eleva as ideias; combate os abusos engendrados pelo egoísmo, a cobiça, a ambição; mas quem terá a coragem de defendê-los e se declararem seus campeões? Se ele não é indispensável à salvação, facilita-a firmando-nos no caminho do bem. Além disso, que homem sensato ousará avançar que a falta de ortodoxia é mais repreensível, aos olhos de Deus, que o ateísmo ou o materialismo? Apresento claramente as questões seguintes, a quantos combatem o Espiritismo, sob o ponto de vista de suas consequências religiosas:

1a Quem terá melhor quinhão na vida futura — aquele que não crê em coisa alguma, ou aquele que, crente das verdades gerais, não admite certas partes do dogma?

2a O protestante e o cismático serão confundidos na mesma reprovação que o ateu e o materialista?

3a O que não é ortodoxo, no rigor da palavra, mas faz o bem que pode, que é bom e indulgente para com o próximo, leal em suas relações sociais, deve contar menos com a salvação do que aquele que crê em tudo, mas é duro, egoísta e baldo de caridade?

4a Qual terá mais valor aos olhos de Deus: a prática das virtudes cristãs sem a dos deveres da ortodoxia, ou a destes últimos sem a da moral? Respondi, senhor abade, às questões e objeções que me dirigistes, mas como vo-lo disse no começo, sem intenção alguma preconcebida de conduzir-vos às nossas ideias e de mudar as vossas convicções, limitando-me tão somente a fazer-vos encarar o Espiritismo sob seu verdadeiro aspecto. Se não tivésseis vindo, eu não vos teria ido procurar. Não quer isto dizer que desprezássemos a vossa adesão aos nossos princípios, caso ela se verificasse; longe disso; julgamo-nos sempre felizes pelas aquisições que fazemos, as quais têm para nós tanto maior valor quanto mais livres e voluntárias são. Não só não temos o direito de exercer constrangimento sobre quem quer que seja, como também sentiríamos escrúpulo em ir perturbar a consciência dos que, tendo crenças que os satisfazem, não venham espontaneamente ao nosso encontro. Dissemos que o melhor meio de se esclarecerem sobre o Espiritismo é estudarem previamente a teoria; os fatos virão depois, naturalmente, e serão facilmente compreendidos, qualquer que seja a ordem em que as circunstâncias os façam vir. As nossas publicações são feitas no intuito de favorecer esse estudo; eis aqui a ordem que aconselhamos.
A primeira leitura a fazer-se é a deste resumo, que apresenta o conjunto e os pontos mais salientes da ciência; com isso, pois, já se pode fazer dela uma ideia e ficar-se convencido de que, no fundo, existe algo de sério. Nesta rápida exposição esforçamo-nos por indicar os pontos sobre que particularmente se deve fixar a atenção do observador. A ignorância dos princípios fundamentais é a causa das falsas apreciações da maioria daqueles que querem julgar o que não compreendem, ou que se baseiam em ideias preconcebidas.
Se desta leitura nascer o desejo de continuar, deve-se ler O livro dos espíritos, no qual os princípios da Doutrina estão completamente desenvolvidos; depois, O livro dos médiuns, para a parte experimental, destinado a servir de guia aos que desejarem operar por si mesmos, como aos que quiserem bem compreender os fenômenos. Vêm depois as diversas obras em que são desenvolvidas as aplicações e as consequências da Doutrina, como: O evangelho segundo o espiritismo, O céu e o inferno ou a justiça divina segundo o espiritismo etc.




Estudo do Livro dos Espíritos








METEMPSICOSE

611. O terem os seres vivos uma origem comum no princípio inteligente não é a consagração da doutrina da metempsicose?

“Duas coisas podem ter a mesma origem e absolutamente não se assemelharem mais tarde. Quem reconheceria a árvore, com suas folhas, flores e frutos, no gérmen informe que se contém na semente donde ela surge? Desde que o princípio inteligente atinge o grau necessário para ser Espírito e entrar no período da humanização, já não guarda relação com o seu estado primitivo e já não é a alma dos animais, como a árvore já não é a semente. De animal só há no homem o corpo e as paixões que nascem da influência do corpo e do instinto de conservação inerente à matéria. Não se pode, pois, dizer que tal homem é a encarnação do Espírito de tal animal. Conseguintemente, a metempsicose, como a entendem, não é verdadeira.”




Que a graça e a paz sejam conosco!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O que é o Espiritismo


"Louvarei ao Senhor em todo o tempo; o seu louvor estará continuamente na minha boca." -( Salmos, 34: 1 )-




Amados irmãos, bom dia!
Reconhecer as bençãos que nos são dispensadas a todo instante e louvar ao Senhor que não se esquece de nós, é um gesto que deve ser feito com a verdadeira gratidão e pureza de coração, pois, é agradável ao Senhor.






Padre. — A Igreja não nega que bons Espíritos possam comunicar-se, pois reconhece que os santos também se têm manifestado; ela, porém, não considera bons aqueles que vêm contradizer seus princípios imutáveis. Os Espíritos ensinam, é verdade, que há penas e recompensas futuras, porém, de modo diverso do que ela ensina; só ela pode julgar o que eles pregam e, portanto, distinguir os bons dos maus.

A. K. — Eis a magna questão. Galileu foi acusado de heresia e de ser inspirado pelo demônio, porque vinha revelar uma Lei da natureza, provando o erro de uma crença julgada inatacável, e, então, foi condenado e excomungado. Se os Espíritos tivessem, sobre todos os pontos, abundado no sentido exclusivo da Igreja, se eles não proclamassem a liberdade de consciência e não condenassem certos abusos, teriam sido todos bem-vindos e não os qualificariam de demônios. Tal é também a razão por que todas as religiões, os muçulmanos como os católicos, crendo-se na posse exclusiva da verdade absoluta, olham como obra do demônio qualquer doutrina que não é inteiramente ortodoxa, do seu ponto de vista. Ora, os Espíritos vêm, não derribar a religião, mas, como Galileu, revelar-nos novas Leis da natureza. Se alguns pontos de fé sofrem com isto, é porque, como na velha crença de girar o Sol ao redor da Terra, estão em contradição com essas leis.
A questão está em saber se um artigo de fé pode anular uma lei natural, que é obra de Deus; e se, sendo essa lei reconhecida, não será mais racional adaptar a interpretação do dogma a ela do que atribuí-la ao demônio.

Padre. — Deixemos a questão dos demônios; bem sei que ela é diversamente interpretada pelos teólogos; porém, o sistema da reencarnação parece-me mais difícil de conciliar com os dogmas, pois que ele não é mais que a renovação da metempsicose de Pitágoras.

A. K. — Não é esta a ocasião própria de discutir uma questão que exige tão longos desenvolvimentos: vós a encontrareis tratada em O livro dos espíritos (questões 166 e seg., 222 e seg. e 1.010) e em O evangelho segundo o espiritismo (capítulos IV e V); não acrescentarei senão duas palavras.
A metempsicose dos antigos consistia na transmigração da alma do homem nos animais, o que implica uma degradação. Ademais, essa doutrina não era o que vulgarmente se crê. A transmigração pelos corpos dos animais não era considerada como condição inerente à natureza da alma humana, mas como punição temporária; é assim que se admitia que as almas dos assassinos fossem habitar os corpos dos animais ferozes, para neles receberem castigos; as dos impudicos, os porcos e javalis; as dos inconstantes e estouvados, os das aves; as dos preguiçosos e ignorantes, os dos animais aquáticos. Depois de alguns milhares de anos, mais ou menos, conforme a culpabilidade, a alma, saindo dessa espécie de prisão, voltava à humanidade. A encarnação animal não era, pois, uma condição absoluta; ela, como se vê, aliava-se à encarnação humana, e a prova é que a punição dos homens tímidos consistia em passar a corpos de mulheres, expostas ao desprezo e às injúrias. (Vede Pluralidade das existências da alma, por Pezzani.) Era uma espécie de espantalho para os simples, antes que um artigo de fé para os filósofos. Assim como dizemos às crianças: “Se fordes más, o lobo vos comerá”, os antigos diziam aos criminosos: “Vós vos tornareis em lobos”, e hoje se diz: “O diabo vos agarrará e levará para o inferno.”
A pluralidade das existências, segundo o Espiritismo, difere essencialmente da metempsicose, em não admitir aquele a encarnação da alma humana nos corpos de animais, mesmo como castigo. Os Espíritos ensinam que a alma não retrograda, mas progride sempre. Suas diferentes existências corpóreas se cumprem na humanidade, sendo cada uma um passo que a alma dá na senda do progresso intelectual e moral; o que é coisa muito diversa da metempsicose.
Não podendo adquirir um desenvolvimento completo em uma só existência, muitas vezes abreviada por causas acidentais, Deus lhe permite continuar, em nova encarnação, o que ela não pôde acabar em outra, ou recomeçar o que fez errado. A expiação na vida corporal consiste nas tribulações que nela sofremos.
Quanto à questão de saber se a pluralidade das existências da alma é ou não contrária a certos dogmas da Igreja, limito-me a dizer o seguinte: Ou a reencarnação existe, ou não; se existe, é uma Lei da natureza. Para provar que ela não existe, seria necessário demonstrar que vai de encontro, não aos dogmas, mas a essas leis, e que há outra mais clara e logicamente melhor que ela, explicando as questões que só ela pode resolver.
Além disso, é fácil demonstrar que certos dogmas encontram nela sanção racional, hoje aceitos por aqueles que os repeliam outrora, por falta de compreensão. Não se trata, pois, de destruir, mas de interpretar; é o que pela força das coisas será feito mais tarde. Aqueles que não queiram aceitar a interpretação ficam perfeitamente livres, como ainda hoje o são, de crer que é o Sol que gira ao redor da Terra. A ideia da pluralidade das existências se vulgariza com pasmosa rapidez, em razão de sua extrema lógica e conformidade com a Justiça de Deus.
Quando ela for reconhecida como verdade natural e aceita por todos, que fará a Igreja? Em resumo: a reencarnação não é um sistema imaginado para satisfação das necessidades de um ideal, nem uma opinião pessoal; é ou não um fato. Se está demonstrado que certos efeitos existentes são materialmente impossíveis sem a reencarnação, é preciso admitirmos que eles são a consequência desta; logo, se está em a natureza, não pode ser anulada por uma opinião contrária.




Estudo do Livro dos Espíritos








610. Ter-se-ão enganado os Espíritos que disseram constituir o homem um ser à parte na ordem da criação?

“Não, mas a questão não fora desenvolvida. Demais, há coisas que só a seu tempo podem ser esclarecidas. O homem é, com efeito, um ser à parte, visto possuir faculdades que o distinguem de todos os outros e ter outro destino. A espécie humana é a que Deus escolheu para a encarnação dos seres que podem conhecê-lo.”




Que a graça e a paz sejam conosco!

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O que é o Espiritismo






"Regozijai-vos no Senhor, vós justos, pois aos retos convém o louvor." -( Salmos, 33: 1 )-




Amados irmãos, bom dia!
Só os justos tem no coração o reconhecimento e se alegram em louvar o Criador. Nesses a alegria, a paz, o amor, a caridade estão sempre presentes e tornam planos os caminhos a serem percorridos.






Padre. — Se a Igreja proíbe as comunicações com os Espíritos dos mortos, é porque elas são contrárias à religião, sendo formalmente condenadas pelo Evangelho e por Moisés. Este último, pronunciando a pena de morte contra essas práticas, prova quanto elas são repreensíveis aos olhos de Deus.

A. K. — Peço-vos perdão, mas essa proibição não se encontra em parte alguma do Evangelho; ela se acha somente na lei moisaica. Trata-se de saber se a Igreja coloca a lei moisaica acima da evangélica; assim será, por certo, se ela for mais judia que cristã.
Devemos mesmo notar que, de todas as religiões, é a judaica a que faz menos oposição ao Espiritismo, contra cujas evocações ela não invocou a lei de Moisés, em que se apoiam as seitas cristãs. Se as prescrições bíblicas são o código da fé cristã, por que proíbem a leitura da Bíblia? Que diriam se se proibisse a um cidadão o estudo do código das leis do seu país? A proibição feita por Moisés tinha então a sua razão de ser, porque o legislador hebreu queria que o seu povo rompesse com todos os hábitos trazidos do Egito, e de entre os quais o de que tratamos era objeto de abusos.
Não se evocava então os mortos pelo respeito e afeição tributados a eles, nem com o sentimento de piedade, mas sim como meio de adivinhar, como objeto de tráfico vergonhoso, explorado pelo charlatanismo e pela superstição; nessas condições, Moisés teve razão de proibi-lo. Se ele pronunciou contra esse abuso uma penalidade severa, é que eram precisos meios rigorosos para conter esse povo indisciplinado; também quanto à pena de morte, era pródiga a sua legislação.
É, pois, um erro apoiar-se na severidade do castigo para provar-se o grau de culpabilidade da evocação dos mortos. Se a interdição da evocação aos mortos vem do próprio Deus, como a Igreja pretende, deve também ser Deus quem marcou a pena de morte contra os delinquentes. Esta pena passa a ter uma origem tão sagrada como a interdição; neste caso, por que não a conservam também? Todas as leis de Moisés são promulgadas em nome e por ordem de Deus; se creem que Deus seja o autor delas, por que não as observam ainda? Se a lei de Moisés é para a Igreja um artigo de fé sobre um ponto, por que deixa de sê-lo sobre os outros todos? Por que recorrem a ela naquilo de que precisam, e repelem-na no que não julgam conveniente? Qual o motivo de não seguirem todas as suas prescrições, entre outras a da circuncisão, a que Jesus se sujeitou e que não aboliu?
Havia na lei moisaica duas partes: 1a, a Lei de Deus, resumida nas tábuas do Sinai; lei que foi conservada porque é divina, e o Cristo não fezmais que desenvolvê-la; 2a, a lei civil ou disciplinar, apropriada aos costumes do tempo, e que o Cristo aboliu. Hoje as circunstâncias são outras, e a proibição de Moisés já não tem razão de ser. Além disso, se a Igreja proíbe a evocação dos Espíritos, poderá também impedir que eles venham sem ser chamados? Não estamos vendo diariamente manifestações de todos os gêneros, entre pessoas que nunca se ocuparam com o Espiritismo? e antes de ele ser divulgado não se davam tantas delas? Outra contradição: Se Moisés proibiu evocar os Espíritos dos mortos, é uma prova de que eles podem vir; do contrário essa interdição seria inútil. Se, em seu tempo, podiam eles entrar em relação com os homens, ainda hoje o podem, e, se são Espíritos de mortos, não são exclusivamente demônios. Antes de tudo, devemos ser lógicos.




Estudo do Livro dos Espíritos



 




609. Uma vez no período da humanidade, conserva o Espírito traços do que era precedentemente, quer dizer: do estado em que se achava no período a que se poderia chamar ante-humano?

“Conforme a distância que medeie entre os dois períodos e o progresso realizado. Durante algumas gerações, pode ele conservar vestígios mais ou menos pronunciados do estado primitivo, porquanto nada se opera na Natureza por brusca transição. Há sempre anéis que ligam as extremidades da cadeia dos seres e dos acontecimentos. Aqueles vestígios, porém, se apagam com o desenvolvimento do livre-arbítrio. Os primeiros progressos só muito lentamente se efetuam, porque ainda não têm a secundá-los a vontade. Vão em progressão mais rápida, à medida que o Espírito adquire mais perfeita consciência de si mesmo.”




Que a graça e a paz sejam conosco!

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O que é o Espiritismo


"Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto." -( Salmos, 32: 1 )-




Amados irmãos, bom dia!
A cada manhã nos é dada mais uma oportunidade para nossa reforma interior. Somos jóias preciosas aos olhos do nosso Criador e tudo que ele quer é que procuremos nossa elevação moral e crescimento em seu amor.






Padre. — A Igreja, com efeito, reconhece hoje que o inferno material é uma figura, mas isso não exclui a existência dos demônios; sem eles, como explicar a influência do mal, que não pode vir de Deus?

A. K. — O Espiritismo não admite os demônios no sentido vulgar da palavra, porém, sim, os maus Espíritos, que não valem mais do que aqueles e que fazem igualmente o mal, suscitando maus pensamentos; somente ele diz não serem eles seres à parte, criados para o mal e perpetuamente votados a isto, espécie de párias da criação e algozes do gênero humano; são seres atrasados, ainda imperfeitos, mas aos quais Deus reservará o futuro.
Nisso concorda o Espiritismo com a Igreja Católica Grega, que admite a conversão de Satã, alusão ao melhoramento dos maus Espíritos.
Notai também que a palavra demônio não implica a ideia de mau Espírito, que lhe é dada pela acepção moderna, porque a palavra daimónion, grega, significa gênio, inteligência. Seja como for, hoje ela exprime um Espírito mau. 
Ora, admitir a comunicação dos maus Espíritos é reconhecer, em princípio, a realidade das manifestações. A questão está em saber se são eles os únicos que se comunicam, como afirma a Igreja para motivar a proibição, feita por ela, de se comunicar com os Espíritos. Aqui, nós invocamos o raciocínio e os fatos. Se os Espíritos, quaisquer que eles sejam, se comunicam, não pode ser senão com a permissão de Deus; é possível que Ele só o tivesse permitido aos maus? Como?! deixando a estes toda a liberdade de virem enganar os homens, Deus poderia impedir que os bons lhes viessem fazer um contrapeso, neutralizar suas doutrinas perniciosas? Crer que seja assim, não seria pôr em dúvida seu poder e bondade, e fazer de Satã um rival da Divindade?
A Bíblia, o Evangelho, os padres da Igreja reconhecem perfeitamente a possibilidade das comunicações com o mundo invisível, e desse mundo não estão excluídos os bons; por que, pois, havemos hoje de excluí-los? Além disso, a Igreja, admitindo a autenticidade de certas aparições e comunicações de santos, rejeita assim a ideia de só podermos entrar em relação com os maus Espíritos. Seguramente, quando nos trabalhos obtidos só encontramos coisas boas, quando nos pregam neles a mais pura e sublime moral evangélica, a abnegação, o desinteresse e o amor ao próximo; quando neles se combate o mal, qualquer que seja o aspecto sobre que se mostre, será racional crer que o Espírito maligno assim proceda?

Padre. — O Evangelho ensina que o anjo das trevas, ou Satã, se transforma em anjo de luz para seduzir os homens.

A. K. — Satã, segundo o Espiritismo e a opinião de muitos filósofos cristãos, não é um ser real; é a personificação do mal, como Saturno era outrora a do tempo. A Igreja apega-se à letra dessa figura alegórica; é uma questão de opinião que eu não discutirei. Admitamos, por um instante, que Satã seja um ser real; a Igreja, à força de exagerar seu poder, tendo em vista intimidar, chega a um resultado totalmente contrário, isto é, à destruição, não somente do medo, mas também da crença em tal personagem, segundo o provérbio: “Quem muito quer provar, nada prova.” Ela o representa como eminentemente fino, sagaz e ardiloso, mas, na questão do Espiritismo, fá-lo desempenhar o papel de louco ou de tolo. Uma vez que seu fim é alimentar de vítimas o inferno e arrebatar almas do poder de Deus, compreende-se que se dirija àqueles que estão no bem para induzi-los ao mal, e, para tal fim, se veja obrigado a transformar-se, segundo belíssima alegoria, em anjo de luz, isto é, que ele hipocritamente simule a virtude, mas que deixe escapar aqueles que já estavam em suas redes, é o que não se pode compreender. Os que não admitem Deus nem a alma, que desprezam a prece e vivem mergulhados no vício, são dele, quanto é possível ser-se; nada mais lhe resta fazer para sepultá-los no lamaçal; ora, excitá-los a voltar a Deus, a orar, a submeter-se à vontade do Criador, animá-los a renunciar ao mal, mostrando-lhes a felicidade dos escolhidos e a triste sorte que aguarda os maus, seria ato de um simplório, mais estúpido que o de dar liberdade a aves que estejam numa gaiola, com o pensamento de apanhá-las de novo. 
Há, pois, na doutrina da comunicação exclusiva dos demônios uma contradição que fere todo homem sensato; nunca se persuadirá alguém que os Espíritos que reconduzem a Deus aqueles que o renegavam, ao bem os que praticavam o mal; que consolam os aflitos, dão força e coragem aos fracos; que, pela sublimidade de seus ensinos, elevam a alma acima da vida material, sejam auxiliares de Satã, e que, por este motivo, se deva interdizer-nos qualquer relação com o mundo invisível.




Estudo do Livro dos Espíritos







608. O Espírito do homem tem, após a morte, consciência de suas existências anteriores ao período de humanidade?

“Não, pois não é desse período que começa a sua vida de Espírito. Difícil é mesmo que se lembre de suas primeiras existências humanas, como difícil é que o homem se lembre dos primeiros tempos de sua infância e ainda menos do tempo que passou no seio materno.
Essa a razão por que os Espíritos dizem que não sabem como começaram.”




Que a graça e a paz sejam conosco!

domingo, 1 de outubro de 2017

O que é o Espiritismo


"Em ti, Senhor, confio; nunca me deixes confundido. Livra-me pela tua justiça." -( Salmos, 31: 1 )-




Amados irmãos, bom dia!
Só o Senhor é digno de toda a confiança. "Os que confiam no Senhor são como os montes de Sião que não podem ser abalados", portanto, nossa fé será manifesta na medida da nossa confiança n'Ele.






Padre — Creio que certos pontos da doutrina católica são contestados pelos Espíritos que considerais superiores; supondo mesmo que esses princípios sejam errôneos, poderá tal crença, segundo a opinião dos ditos Espíritos, ser prejudicial à salvação daqueles que, errando ou acertando, a consideram artigo de fé e a praticam?

A. K. — Certamente que não, se ela os não desviar da prática do bem, se ela antes os incitar a isso; ao passo que a mais bem fundada crença os prejudicará evidentemente, se lhes fornecer ocasião de fazer o mal, de faltar à caridade com o próximo, se ela os tornar duros e egoístas, por que então não praticam segundo a Lei de Deus, e Deus olha mais os pensamentos que os atos. Quem poderá sustentar o contrário?

Acreditais, por exemplo, que a fé possa ser proveitosa a um homem que, crendo perfeitamente em Deus, pratique atos inumanos ou contrários à caridade? Não haverá sempre mais culpa naquele que mais meios tinha de esclarecimento?

Padre. — Assim, o católico fervoroso, que escrupulosamente cumpre com os deveres do seu culto, não é censurado pelos Espíritos?

A. K. — Não, se isso é para ele uma questão de consciência, se ele o faz com sinceridade; sim, mil vezes sim, se for hipócrita, se só tiver piedade aparente. Os Espíritos superiores, os encarregados do progresso da humanidade, declararam-se contra todos os abusos que podem retardar esse progresso, qualquer que seja a natureza deles e quaisquer que sejam os indivíduos ou as classes que deles se aproveitem. Ora, não se pode negar que a religião nem sempre esteve isenta de abusos; se, entre os seus ministros, há muitos que desempenham sua missão com devotamento inteiramente cristão, que a fazem grande, bela e respeitável, convireis que nem todos assim sempre compreenderam a santidade do seu ministério. Os Espíritos combatem o mal, onde quer que ele se ache, mas assinalar os abusos da religião, será atacá-la? Ela não tem inimigos piores que aqueles que defendem esses abusos, abusos que fazem nascer o pensamento de poder ser ela substituída por outra melhor. Se a religião corresse qualquer perigo, deveria a responsabilidade cair sobre os que dão dela falsa ideia, transformando-a em arena de paixões humanas e explorando-a em proveito de sua ambição.

Padre. — Dissestes que o Espiritismo não discute os dogmas, e, entretanto, ele admite certos pontos combatidos pela Igreja, tais como, por exemplo, a reencarnação, a aparição do homem na Terra, antes de Adão; nega a eternidade das penas, a existência dos demônios, o purgatório e o fogo do inferno.

A. K. — Já de há muito que esses pontos estão sendo discutidos; não foi o Espiritismo quem os pôs em litígio; são pontos sobre alguns dos quais há controvérsia, mesmo entre os teólogos, e que só o futuro julgará. Um grande princípio domina a todos: a prática do bem, que é a lei superior, a condição sine qua non do nosso futuro, como no-lo prova o estado dos Espíritos que conosco se comunicam. Enquanto a luz não se faz para vós sobre essas questões, crede, se o quiserdes, nas chamas e torturas materiais, se julgais que isso impede que pratiqueis o mal; essa crença, porém, não as tornará mais reais se elas não existirem.
Acreditais que não temos mais de uma existência corporal, mas isto não impede de renascerdes aqui ou em outra parte, se assim tiver de ser, apesar de o não quererdes; credes que o mundo todo foi criado em seis vezes vinte e quatro horas, mas, apesar disso, a Terra nos apresenta a prova do contrário, escrita em suas camadas geológicas; estais convencido de haver Josué feito parar o Sol, o que não dá lugar a que deixe de ser a Terra que gira; dizeis que a data da vinda do homem à Terra não vai além de 6.000 anos: isto, porém, não priva que os fatos vos contradigam. E que direis se um dia a Geologia demonstrar, por traços patentes, a anterioridade do homem, como já tem demonstrado tantas outras coisas? Crede, pois, em tudo que vos aprouver, mesmo na existência do diabo, se tal crença vos puder tornar bom, humano e caridoso para com os vossos semelhantes. O Espiritismo, como doutrina moral, só impõe uma coisa: a necessidade de fazer o bem e evitar o mal. É uma ciência de observação que, repito, tem consequências morais, que são a confirmação e a prova dos grandes princípios da religião; quanto às questões secundárias, ele as abandona à consciência de cada um.
Notai bem, reverendo, que alguns dos pontos divergentes de que acabastes de falar, não são, em princípio, contestados pelo Espiritismo. Se tivésseis lido tudo quanto tenho escrito a respeito, teríeis visto que ele se limita a dar-lhes uma interpretação mais lógica e racional do que a que vulgarmente se lhes dá. É assim, por exemplo, que ele não nega o purgatório; antes, pelo contrário, demonstra sua necessidade e justiça; vai mesmo além: ele o define. O inferno foi descrito como imensa fornalha, mas ele será assim também compreendido pela alta teologia? Evidentemente, não; ela diz muito bem que isto é uma simples figura; que o fogo que ali se consome é um fogo moral, símbolo das maiores dores. Quanto à eternidade das penas, se fosse possível pôr-se a votos tal questão, para se conhecer a opinião íntima de todos os homens que raciocinam e se acham no caso de compreendê-la, mesmo entre os mais religiosos se veria para que lado penderia a maioria, porque a ideia de uma eternidade de suplícios é a negação da infinita misericórdia de Deus. Eis, ademais, o que avança a Doutrina Espírita a tal respeito:
A duração do castigo é subordinada ao melhoramento do Espírito culpado. Nenhuma condenação por tempo determinado é pronunciada contra ele. O que Deus exige, para pôr um termo aos sofrimentos, é o arrependimento, a expiação e a reparação; em uma palavra, um melhoramento sério e efetivo, uma volta sincera ao bem. O Espírito é assim o árbitro de sua própria sorte; sua pertinácia no mal prolonga-lhe os sofrimentos; seus esforços para fazer o bem os minoram ou abreviam. Sendo a duração da pena subordinada ao arrependimento, o Espírito culpado, que não se arrependesse e nunca se melhorasse, sofreria sempre, e para ele então a pena seria eterna. Essa eternidade de penas deve ser entendida no sentido relativo, e não no absoluto. Uma condição inerente à inferioridade do Espírito é não ver o termo da sua situação e crer que há de sofrer sempre — o que é para ele um castigo. Desde que, porém, sua alma se abra ao arrependimento, Deus lhe faz entrever um raio de esperança.
Esta doutrina é, por certo, mais conforme à Justiça de Deus, que pune, enquanto o culpado persiste no mal, e concede-lhe graça desde que ele volte ao bom caminho. Quem imaginou essa teoria? Seríamos nós? Não; são os Espíritos que a ensinam e provam, pelos exemplos que diariamente nos fornecem. Os Espíritos não negam, pois, as penas futuras, pois que são eles mesmos que nos vêm descrever seus próprios sofrimentos; e este quadro nos toca mais que o das chamas perpétuas, porque tudo nele é perfeitamente lógico. Compreende-se que isto é possível, que assim deve ser, que essa situação é uma consequência natural das coisas; o pensador filósofo pode aceitá-lo, porque nele nada repugna à razão. Eis por que as crenças espíritas têm conduzido ao bem muita gente, mesmo entre os materialistas, aos quais não fazia mossa o medo do inferno, como lhes era pintado.

Padre. — Admitindo esse raciocínio, não julgais que o vulgo precisa de imagens mais impressionantes, antes que de uma filosofia que ele não pode compreender?

A. K. — É isso um erro que tem lançado mais de um homem no materialismo, ou, pelo menos, afastado mais de um homem da religião.
Chega o momento em que essas imagens não impressionam mais, e então aqueles que não aprofundam as coisas, não aceitando uma parte, rejeitam o todo, porque, dizem eles: se me ensinaram como verdade incontestável um ponto que é falso, se me deram uma imagem, uma figura, pela realidade, quem me afiança que o resto seja verdadeiro? Se, pelo contrário, a razão, crescendo, nada tem a repelir, a fé se fortifica. A religião ganhará sempre em seguir o progresso das ideias; se alguma vez ela corre perigo, é quando os homens querem avançar e ela deseja ficar estacionária. Comete um erro de época quem espera conduzir os homens de hoje pelo medo do demônio e das torturas eternas.




Estudo do Livro dos Espíritos








607. Dissestes que o estado da alma do homem, na sua origem, corresponde ao estado da infância na vida corporal, que sua inteligência apenas desabrocha e se ensaia para a vida. Onde passa o Espírito essa primeira fase do seu desenvolvimento?

“Numa série de existências que precedem o período a que chamais Humanidade.”

a) — Parece que, assim, se pode considerar a alma como tendo sido o princípio inteligente dos seres inferiores da criação, não?

“Já não dissemos que tudo em a Natureza se encadeia e tende para a unidade? Nesses seres, cuja totalidade estais longe de conhecer, é que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco e se ensaia para a vida, conforme acabamos de dizer. É, de certo modo, um trabalho preparatório, como o da germinação, por efeito do qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito. Entra então no período da humanização, começando a ter consciência do seu futuro, capacidade de distinguir o bem do mal e a responsabilidade dos seus atos. Assim, à fase da infância se segue a da adolescência, vindo depois a da juventude e da madureza. Nessa origem, coisa alguma há de humilhante para o homem. Sentir-se-ão humilhados os grandes gênios por terem sido fetos informes nas entranhas que os geraram? Se alguma coisa há que lhe seja humilhante, é a sua inferioridade perante Deus e sua impotência para lhe sondar a profundeza dos desígnios e para apreciar a sabedoria das leis que regem a harmonia do Universo. Reconhecei a grandeza de Deus nessa admirável harmonia, mediante a qual tudo é solidário na Natureza. Acreditar que Deus haja feito, seja o que for, sem um fim, e criado seres inteligentes sem futuro, fora blasfemar da sua bondade, que se estende por sobre todas as suas criaturas.”

b) — Esse período de humanização principia na Terra?

“A Terra não é o ponto de partida da primeira encarnação humana. O período da humanização começa, geralmente, em mundos ainda inferiores à Terra. Isto, entretanto, não constitui regra absoluta, pois pode suceder que um Espírito, desde o seu início humano, esteja apto a viver na Terra. Não é frequente o caso; constitui antes uma exceção.”




Que a graça e a paz sejam conosco!