terça-feira, 24 de março de 2020

O Céu e o Inferno


"Porque derramarei água sobre o solo sequioso, fa-la-ei correr sobre a terra árida, derramarei meu espírito sobre tua posteridade e minha benção sobre teus rebentos". -( Isaías, 44: 3 )-




Amados irmãos, bom dia!
Não estamos sós, jamais. O Senhor a todo momento está cuidado de nós e sabe todas as nossas necessidades. Voltemos a ele agradecidos.




              Joseph Maître, o cego

Pertencia à classe mediana da sociedade e gozava de modesta abastança, ao abrigo de quaisquer privações. Os pais o destinavam à indústria e deram-lhe boa educação, porém, aos 20 anos, ele perdia a visão. Com perto de 50, veio finalmente a falecer, isto em 1845. Dez anos antes, fora acometido por outra enfermidade que o deixou surdo, de modo que só pelo tato mantinha relações com o mundo dos encarnados. Ora, não ver, já é um suplício; não ver e não ouvir é duplicado suplício, principalmente para quem depois de fruir as faculdades de tais sentidos tiver de suportar essa dupla privação. Qual a causa de sorte tão cruel? Certo não era a sua última existência, sempre moldada numa conduta exemplar. Assim é que sempre foi bom filho, possuidor de caráter meigo e benévolo, e, quando por cúmulo de infelicidade se viu privado da audição, aceitou resignado, sem um queixume, esta prova. Pela sua conversação, pressentia-se na lucidez do seu Espírito uma inteligência pouco comum. Pessoa que o conhecera, na presunção de que poderia receber instruções úteis, evocou-lhe o Espírito e obteve a seguinte mensagem, em resposta às perguntas que lhe dirigira:  
(Paris – 1863.) “Agradeço, meus amigos, o terdes lembrado de mim. Pode ser que tal se não desse independente da suposição de proveito da minha comunicação, mas, ainda assim, estou certo de que motivos sérios vos animam e eis por que com prazer atendo ao chamado, uma vez que, por feliz, me é permitido orientar-vos. Assim possa o meu exemplo avolumar as provas assaz numerosas que os Espíritos vos dão da Justiça de Deus. Cego e surdo me conhecestes, e para logo vos propusestes saber a causa de tal destino. Eu vo-lo digo: Antes de tudo, importa dizer que era a segunda vez que eu expiava a privação da vista. Na minha precedente existência, em princípios do último século, fiquei cego aos 30 anos, em decorrência de excessos de todo o gênero que, arruinando-me a saúde, me enfraqueceram o organismo. Note-se que era já isso uma punição por abuso dos dons providenciais de que fora largamente cumulado. Em vez, porém, de me atribuir a causa original dessa enfermidade, entendi de acusar a Providência, na qual, aliás, pouco cria. Anatematizei Deus, reneguei-o, acusei-o, acrescentando que, se acaso existisse, devia ser injusto e mau, por deixar assim penar as criaturas. Entretanto, eu deveria dar-me ainda por feliz, isento como estava de mendigar o pão, à feição de tantos outros míseros cegos como eu. Mas é que eu só pensava em mim, na privação de gozos que me impunham. Influenciado por ideias tais, que o ceticismo mais exaltava, tornei-me frenético, exigente, numa palavra, insuportável aos que comigo privavam. Além disso, a vida era-me um moto-contínuo, pois que eu não pensava no futuro — uma quimera. Depois de esgotar baldamente os recursos da Ciência e reputada impossível a cura, resolvi antecipar a morte: suicidei-me. Que despertar, então, que foi o meu, imerso nas mesmas trevas da vida! Contudo, não tardou muito o reconhecimento da minha situação, da minha transferência para o mundo espiritual. Era um Espírito, sim, porém, cego. A vida de além-túmulo tornava-se-me, pois, a realidade! Procurei fugir-lhe, mas em vão... Envolvia-me o vácuo. Pelo que ouvia dizer, essa vida deveria ser eterna, e com ela a minha situação. Ideia horrenda! Eu não sofria, mas impossível é descrever as angústias e tormentos espirituais experimentados. Quanto teriam eles durado? Ignoro-o... Mas quão longo me pareceu este tempo! Extenuado, fatigado, pude finalmente analisar-me a mim mesmo, e compreendi o ascendente de um poder superior, que sobre mim atuava, e considerei que se essa potência podia oprimir-me, também poderia aliviar-me. E implorei piedade. À proporção que orava e o fervor se me aumentava, alguém me dizia que a minha situação teria um termo. Por fim se fez a luz e extremo foi o meu arroubo de alegria ao entrever as claridades celestes, distinguindo os Espíritos que me rodeavam, sorrindo, benévolos, bem como os que, radiosos, flutuavam no Espaço. Ao querer seguir-lhes os passos, força invisível me reteve. Foi então que um deles me disse: “O Deus que negaste teve comiseração do teu arrependimento e permitiu-nos te déssemos a luz, mas tu só cedeste pelo sofrimento, pelo cansaço. Se queres participar desta felicidade aqui fruída, forçoso é provares a sinceridade do teu arrependimento, as boas disposições, recomeçando a prova terrestre em condições que te pre-disponham às mesmas faltas, porque esta nova provação deverá ser mais rude que a outra.” Aceitei pressuroso, prometendo não mais falir. Assim voltei à Terra nas condições que sabeis. Não me foi difícil compreender a situação, porque eu não era mau por índole; revoltara-me contra Deus, e Deus me puniu. Reencarnei trazendo a fé inata, razão por que não murmurei, antes aceitei a dupla enfermidade resignado, como expiação que era, oriunda da soberana justiça. O insulamento dos meus derradeiros anos nada tinha de desesperador, porquanto me bafejava a fé no futuro e na misericórdia de Deus. Ademais, esse insulamento me foi proveitoso, porque durante a longa noite silenciosa a minha alma mais livremente se alçava ao Eterno, entrevendo o infinito pelo pensamento. Quando, por fim, terminou o exílio, o mundo espiritual só me proporcionou esplendores, inefáveis gozos. O retrospecto ao passado faz que me julgue muito feliz, relativamente, pelo que dou graças a Deus; quando, porém, olho para o futuro, vejo a grande distância que ainda me separa da completa felicidade. Tendo já expiado, ainda me faltava reparar. A última encarnação só a mim aproveitou, pelo que espero recomeçar brevemente por existência que me permita ser útil ao próximo, reparando por esse meio a inutilidade anterior. E só assim me adiantarei na boa senda, sempre franqueada aos Espíritos possuídos de boa vontade. Amigos, eis aí a minha história; e se o meu exemplo puder esclarecer quaisquer dos meus irmãos encarnados, de modo a evitarem a má ação que pratiquei, terei por principiado o resgate da minha dívida.” 

                                                                                     Joseph




Que a graça e a paz sejam conosco!

segunda-feira, 23 de março de 2020

O Céu e o Inferno


"Se tiveres de atravessar a água, estarei contigo. E os rios não te submergirão; se caminhares pelo fogo, não te queimarás e a chama não te consumirá". -( Isaías, 43: 2 )-




Amados irmãos, bom dia!
Que não percamos a esperança, jamais, pois, o Senhor sabe o que nos convém e o que nos permite passar para nossa edificação. Confiemos!




                      Anna Bitter 

A perda de um filho adorado é motivo de acerbo pesar; ver, porém, o filho único, alvo de todas as esperanças, depositário de todas as afeições, definhar a olhos vistos e sem sofrimentos, por causas desconhecidas, por um desses caprichos da natureza que zombam da Ciência e, depois de esgotar todos os recursos, não haver por compensação uma esperança sequer; suportar essa angústia de todos os momentos, por longos anos, sem lhe prever o termo, é um suplício cruel que a fortuna agrava em vez de suavizar, dada a impossibilidade de vê-la fruída pelo ente adorado. Esta era a situação do pai de Anna Bitter, que por isso se entregou a um íntimo desespero. O caráter se lhe exasperava ante tal espetáculo a cortar-lhe o coração, e cujas consequências não poderiam deixar de ser fatais, ainda que indeterminadas. Um amigo da família, adepto do Espiritismo, julgou dever interrogar a respeito o seu protetor espiritual, e obteve a seguinte resposta: “Muito desejo explicar-te o caso que ora te preocupa, mesmo porque sei que a mim não recorres por curiosidade indiscreta, mas pelo interesse que te merece aquela pobre criança, e ainda porque, crente na Justiça divina, tu só terás a ganhar com isso. Todos os que acarretam sobre si a justiça do Senhor devem curvar a fronte sem maldições nem revoltas, porque não há castigo sem causa. A pobre criança, cuja sentença de morte fora suspensa por Deus, em breve deverá regressar ao nosso meio, visto como mereceu a divina compaixão; quanto ao seu pai, esse homem infeliz, tem de ser punido na sua única afeição mundana, visto haver zombado da confiança e dos sentimentos de quantos o rodeiam. Por momentos o seu arrependimento tocou o Onipotente e a morte sustou o golpe sobre o ente que lhe é tão caro; mas para logo veio a revolta, e o castigo sempre acompanha a revolta. Em tais condições, é felicidade ainda o ser punido nesse mundo! Meus amigos, orai por essa pobre criança, cuja juventude vai dificultar-lhe os últimos momentos. Nesse ser a seiva é tão abundante, que, apesar do seu depauperamento orgânico, a alma terá dificuldade em se lhe desprender. Oh! orai... Mais tarde ela também vos auxiliará e consolará, visto que o seu Espírito é mais adiantado do que os que a rodeiam. Para que o seu desprendimento seja auxiliado, coube-me, como graça especial do Senhor, o poder orientar-vos a respeito.” 
Depois de haver expiado o insulamento, morreu o pai de Anna Bitter. A seguir, damos de uma e outro as primeiras comunicações imediatas às respectivas desencarnações:

Da filha. — Obrigada, meu amigo, à vossa intercessão por esta criança, bem como por terdes seguido os conselhos do vosso bom guia. Sim. Graças às vossas preces, mais fácil me foi deixar o invólucro terrestre, porque meu pai... Ah! esse não orava, maldizia! Entretanto, não lhe quero mal por isso — consequência da grande ternura que me votava. A Deus rogo que lhe conceda luzes antes de morrer; e, quanto a mim, o incito e animo, porque me assiste a missão de lhe suavizar os últimos momentos. Vezes há nas quais parece que um raio de luz divina baixa até ele e o comove; contudo, isso não passa de fugaz clarão, que para logo o deixa entregue às primitivas ideias. Ele tem consigo um gérmen de fé, mas tão sufocada pelos mundanos interesses, que só poderá vingar por meio de novas e mais cruéis provações. Pelo que me diz respeito, apenas cumpria suportar um resto de prova, de expiação, e assim é que ela não foi nem muito dolorosa nem muito difícil. A minha singular enfermidade não acarretava sofrimentos; eu era como que instrumento da provação de meu pai, o qual, por me ver em tal estado, sofria mais do que eu mesma. Além disso, eu tinha resignação e ele não. Hoje sou recompensada. Deus, graciosamente, abreviou-me a estada na Terra — o que aliás lhe agradeço. Feliz entre os bons Espíritos que me cercam, todos cumprimos satisfeitos as nossas obrigações, mesmo porque a inatividade seria um cruel suplício. 

O Pai (um mês depois da morte.) — Evocando-vos, temos por fim nos informarmos da vossa situação no mundo dos Espíritos e ser-vos úteis na medida das nossas forças. 
— R. O mundo dos Espíritos? Não o vejo... O que vejo são homens conhecidos, que comigo não se preocupam e tampouco me deploram a sorte, antes parecendo-me contentes de se verem livres de mim.

— P. Mas fazeis uma ideia exata da vossa condição? 
— R. Perfeitamente: por algum tempo julguei-me ainda no vosso mundo, mas hoje sei muito bem que não mais lhe pertenço.

— P. Por que, então, não podeis divisar outros Espíritos que vos rodeiam? 
— R. Ignoro-o, conquanto tudo esteja bem claro em torno de mim.

— P. Ainda não vistes a vossa filha? 
— R. Não, ela está morta; procuro-a, chamo por ela inutilmente. Que vácuo horrível que a sua morte me deixou na Terra! Morrendo, julgava encontrá-la, mas nada! O insulamento sempre e sempre! ninguém que me dirija uma palavra de consolação e de esperança. Adeus, vou procurar minha filha.

O guia do médium. — Este homem não era ateu nem materialista, mas daqueles que creem vagamente, sem se preocuparem de Deus e do futuro, empolgados como são pelos interesses terrenos. Profundamente egoísta, tudo sacrificaria para salvar a filha, mas também sem o mínimo escrúpulo sacrificaria os interesses de terceiros em seu proveito pessoal. Por ninguém se interessava, além da sua filha. Deus o puniu da forma como o vistes, arrebatando-lhe da Terra a consolação única; e como ele se não arrependesse, o sequestro subsiste no mundo espiritual. Não se interessando por ninguém aí, também aqui ninguém por ele se interessa. Permanece só, insulado, abandonado, e nisso consiste a sua punição. Mas que faz ele em tais conjunturas? Dirige-se a Deus? Arrepende-se? Não: murmura sempre, blasfema até, faz, em uma palavra, o que fazia na Terra. Ajudai-o, pois, pela prece como pelo conselho, a desanuviar-se da sua cegueira.




Que a graça e a paz sejam conosco!

domingo, 22 de março de 2020

O Céu e o Inferno


"Eis meu servo que eu amparo, meu eleito ao qual dou toda a minha afeição, faço repousar sobre ele  meu espírito, para que leve às nações a verdadeira religião". -( Isaías, 42: 1 )-




Amados irmãos, bom dia!
Somos chamados a ser luz do mundo; busquemos refletir o brilho do Senhor em nossas vidas, para, assim, cumprirmos nossa jornada evolutiva.




                              Françoise Vernhes

Esta era cega de nascimento e filha de um rendeiro das cercanias de Toulouse. Faleceu em 1855, aos 45 anos. Ocupava-se constantemente com o ensino do catecismo aos meninos, preparando-os para a primeira comunhão. Mudado o catecismo, nenhuma dificuldade lhe sobreveio em ensinar o novo, por conhecê-los ambos de cor. De regresso de longa excursão em tarde invernosa, na companhia de uma tia, era-lhe preciso atravessar sombria floresta por caminhos lamacentos. Fazia-se mister a maior precaução para que as duas mulheres se não despenhassem nos fossos. Nesta contingência, querendo a tia dar-lhe a mão, ela disse: “Não vos incomodeis comigo, não corro risco algum, visto como tenho aos ombros uma luz que me guia. Segui-me, pois, que serei eu a conduzir-vos.” Assim terminaram a jornada sem acidente, conduzindo a cega a tia que tinha bons olhos. 

(Evocação em Paris, em maio de 1865.) 

— P. Quereis dizer-nos que luz seria essa a guiar-vos naquela noite trevosa e só vista por vós? 
— R. Quê! Pois as pessoas como vós, em contínuas relações com os Espíritos, têm necessidade de explicação sobre tal fato? Era o meu anjo de guarda quem me guiava.

— P. Essa era também a nossa opinião, mas desejávamos vê-la confirmada. Mas sabíeis naquela ocasião que era o vosso anjo de guarda quem vos conduzia? 
— R. Confesso que não, posto acreditasse numa intervenção do Céu. Eu orara por tanto tempo para que o Pai celestial se apiedasse de mim... É tão cruel a cegueira... Sim, ela é bem cruel, mas também reconheço ser justa.“Aqueles que pecam pelos olhos, por eles devem ser punidos; e assim deve suceder quanto a todas as outras faculdades do homem, que o levam ao abuso. Não procureis, portanto, nos inúmeros sofrimentos humanos, outra causa que lhes não seja a própria e natural, a expiação.“ Esta, contudo, só é meritória quando suportada com humildade, podendo ser suavizada por meio da prece, pela atração de influências espirituais que, protegendo os réus da penitenciária humana, lhes infundam esperança e conforto.”


— P. Dedicada ao ensino das crianças pobres, tivestes dificuldade em adquirir os conhecimentos do catecismo quando o mudaram? 
— R. Ordinariamente, os cegos têm outros sentidos duplos, se assim se pode dizer. A observação não é uma das menores faculdades da sua natureza. “A memória lhes é qual armário onde se colocam coordenados, e para sempre, os ensinos referentes às suas aptidões e tendências. E porque nada do exterior pode perturbar esta faculdade, o seu desenvolvimento pode ser notável, pela educação. Quanto a mim, agradeço a Deus o haver-me concedido que tal faculdade me permitisse preencher a missão que levava, junto dessas crianças, e que constituía também uma reparação do mau exemplo que lhes dera em anterior existência. Tudo é assunto sério para os espíritas; basta, para afirmá-lo, olhar ao derredor deles. Os meus ensinos lhes seriam porventura mais úteis do que se se deixassem levar pelas sutilezas filosóficas de certos Espíritos, que se divertem com lisonjear-lhes o orgulho em frases tão bombásticas quão vazias de sentido.”

— P. Pela vossa conduta terrena, tivemos uma prova do vosso adiantamento moral, e agora, pela vossa linguagem, temos a de que esse adiantamento também é intelectual. 
— R. Muito me resta por adquirir; há, porém, muita gente que na Terra passa por ignorante, só porque tem a inteligência embotada pela expiação. Com a morte se rasga o véu, e frequentemente os ignorantes são mais instruídos do que os desdenhosos da sua ignorância. Crede que o orgulho é a pedra de toque para o conhecimento dos homens. “Todos os que possuírem coração acessível à lisonja, demasiado confiantes na sua ciência, estão no mau caminho; em geral são hipócritas e, portanto, desconfiai deles.“ Sede humildes qual o foi o Cristo e, como ele, com amor carregai a vossa cruz, a fim de subirdes ao reino dos Céus.” 

                                                                 Françoise Vernhes




Que a graça ea a paz sejam conosco!

sábado, 21 de março de 2020

O Céu e o Inferno


"Nada temas, porque estou contigo, não lance olhares desesperados, pois eu sou teu Deus; eu te fortaleço e venho em teu socorro, eu te amparo com minha destra vitoriosa". -( Isaías, 41: 10 )-




Amados irmãos, bom dia!
O Senhor nos chama de volta ao seu caminho. Depositemos nele nossa confiança e esperança, na certeza, única, de que, só ele, é o Senhor e jamais nos abandonará.




                     Clara Rivier

Era uma menina dos seus 10 anos, filha de uma família de camponeses do sul da França. Havia já 4 anos que se achava profundamente enferma. Durante a vida nunca se lhe ouviu um queixume, um sinal de impaciência, e, conquanto desprovida de instrução, consolava a família nas suas aflições, comentando a vida futura e a felicidade que da mesma deveria decorrer. Desencarnou em setembro de 1862, após 4 dias de convulsivas torturas, durante as quais não cessava de orar. “Não temo a morte”, dizia, “por isso que depois dela me está reservada uma vida feliz.”  
A seu pai, que chorava, dizia: “Consola-te, porque virei visitar-te; sinto que a hora se aproxima, mas, quando ela chegar, saberei prevenir-te.” 
E, efetivamente, quando era iminente o momento fatal, chamou por todos os seus e disse-lhes: “Tenho apenas cinco minutos de vida; deem-me as mãos.” E expirou como previra. Daí por diante, um Espírito batedor principiou a visitar a casa dos Rivier: quebra tudo, bate na mesa, agita as roupas, as cortinas, a louça... Sob a forma de Clara ele aparece à irmã mais nova, que conta apenas 5 anos. Segundo afirma essa criança, a irmã lhe aparece frequentemente, e tais aparições lhe provocam exclamações de alegria como esta: “Mas vejam como Clara é bonita!” 

1. Evocação
— R. Aqui estou, disposta a responder-vos.

2. Tão jovem quando encarnada, donde vos vinham as elevadas ideias sobre a vida futura, manifestadas neste mundo? 
— R. Do pouco tempo que me cumpria passar no vosso planeta e da minha precedente encarnação. Eu era médium tanto ao deixar como ao voltar à Terra; predestinada, sentia e via o que dizia.

3. Como se explica que uma criança da vossa idade não desse um só gemido durante quatro anos de sofrimento? 
— R. Porque esse sofrimento físico era dominado por maior potência — a do meu guia, continuamente visível ao meu lado. Ele, ao mesmo tempo que me aliviava, sabia incutir-me uma força de vontade superior aos sofrimentos.

4. Como vos apercebestes do momento decisivo da morte? 
— R. Por influxo do meu anjo de guarda, que jamais me iludiu.  

5. Dissestes a vosso pai que se resignasse porque viríeis visitá-lo. Como se explica, pois, que, animada de tão bons sentimentos para com vossos pais, viésseis perturbá-los depois com arruídos em sua casa?
— R. É que eu tenho indubitavelmente uma provação, ou antes uma missão a realizar. Acreditais que venha ver meus pais sem fito algum? Esses rumores, essas lutas derivadas da minha presença são um aviso. Nisso sou também auxiliada por outros Espíritos cuja turbulência tem sua razão de ser, como razão de ser tem a minha aparição à irmãzinha... Graças a nós, muitas convicções vão despontar. Meus pais haviam de passar por uma provação. Bem cedo isso passará, mas não antes de terem convencido uma multidão de espíritos.

6. Então não sois vós, individualmente, o autor desses rumores? — R. Sou, porém, ajudada por Espíritos ao serviço da provação reservada aos meus genitores.

7. Como se explica, então, que a irmãzinha só vos reconhecesse, não sendo vós a autora exclusiva de tais manifestações? 
— R. É que ela apenas me viu a mim. Agora dispõe de vista dupla, e ainda terei de confortá-la muitas vezes com a minha presença.

8. Qual a razão dos vossos sofrimentos mortificantes numa idade tão infantil? 
— R. Faltas anteriores, expiação. Na precedente existência eu abusara da saúde, como da posição brilhante que ocupara. Eis por que Deus me disse: “Gozaste demasiada e desmesuradamente, portanto, pagarás a diferença; eras orgulhosa, logo, serás humilde; vaidosa da tua beleza, importa que dela decaias, esforçando-te antes por adquirir a caridade e a bondade.” Procedi consoante a vontade divina e o meu guia me auxiliou.

9. Quereis que digamos algo aos vossos pais? 
— R. A pedido de um médium, eles já tiveram ensejo de praticar a caridade, de não orarem só com os lábios, e fizeram bem, porque cumpre fazê-lo também na prática, pelo coração. Socorrer os que sofrem é orar, é ser espírita. A todas as almas Deus concedeu livre-arbítrio, isto é, faculdade de progresso, como lhes deu a todas a mesma aspiração, e, por isso, mais do que geralmente se pensa, o avental roça pela toga bordada. Aproximai as distâncias pela caridade, dai guarida ao pobre em vossa casa, reanimai-o, não o humilheis. Se esta grande lei da consciência fosse geralmente praticada, o mundo não assistiria periodicamente a essas grandes penúrias que desonram a civilização dos povos, e que por Deus são enviadas para castigá-los e abrir-lhes os olhos. Queridos pais, orai. Amai-vos, praticai a lei do Cristo: Não façais a outrem o que não quiserdes que vos façam. Apelai para o Deus que vos experimenta, mostrando que a sua bondade é santa e infinita como Ele. Como previsão do futuro, armai-vos de coragem e perseverança, visto que sois chamados a sofrer ainda. Cumpre fazer jus à boa posição em mundo melhor, onde a compreensão da Justiça divina se torna a punição dos maus Espíritos. Queridos pais, estarei sempre perto de vós. Adeus, ou, antes, até a vista. Tende resignação, caridade, amor por vossos semelhantes, e um dia sereis felizes. 

                                                                                Clara

“Mais do que geralmente se pensa, o avental roça pela toga bordada...” Esta imagem belíssima é alusão aos Espíritos que, de uma a outra existência, passam de brilhantes a humílimas condições, expiando muitas vezes o abuso em relação aos dons que Deus lhes concedeu. É uma justiça essa que está ao alcance de todos. Profundo pensamento é também esse que atribui as calamidades coletivas à infração das Leis divinas, porque Deus castiga os povos tanto quanto os indivíduos. Realmente, pela prática da caridade, as guerras e as misérias acabariam por ser eliminadas. Pois bem, a prática dessa lei conduz ao Espiritismo e, quem sabe, será essa a razão de ter ele tantos e tão acérrimos inimigos? As exortações desta filha, aos pais, serão acaso as de um demônio?




Que a graça e a paz sejam conosco!

sexta-feira, 20 de março de 2020

O Céu e o Inferno


"Mas aqueles que contam com o Senhor renovam suas forças; dá-lhes asas de águia. Correm sem se cansar, vão para a frente sem se fatigar". -( Isaías, 40: 31 )-




Amados irmãos, bom dia!
Nada é por acaso. Estamos vivendo tempos sombrios e nos encontramos frente a mistérios edificantes. Somos chamados para a união e para a fraterna convivência. Que se abra nosso entendimento e modifiquemos nossa relação.




           Adélaïde-Marguerite Gosse 


Era uma humilde e pobre criada, de Harfleur, Normandia. Aos 11 anos entrou para o serviço de uns horticultores ricos, da sua terra. Um ano depois, uma inundação do Sena arrebatava-lhes, afogando-os, todos os animais! Ainda por outras desgraças supervenientes, os patrões da rapariga caíram na miséria! Adélaïde reuniu-se-lhes no infortúnio, abafou a voz do egoísmo e, só ouvindo o generoso coração, obrigou-os a aceitarem quinhentos francos de suas economias, continuando a servi-los independentemente de salário. Depois da morte dos patrões, passou a dedicar-se a uma filha que deixaram, viúva e sem recursos. Mourejava pelos campos, recolhia o produto, e, casando-se, reuniu os seus esforços aos do marido, para manterem juntos a pobre mulher, a quem continuou a chamar sua patroa! Cerca de meio século durou esta abnegação sublime. A Sociedade de emulação de Rouen não deixou no esquecimento essa mulher digna de tanto respeito e admiração, porquanto lhe decretou uma medalha de honra e uma recompensa em dinheiro; a este testemunho associaram-se as lojas maçônicas do Havre, oferecendo-lhe uma pequena soma destinada ao seu bem-estar. Finalmente, a administração local também se interessou por ela, delicadamente, de modo a não lhe ferir a suscetibilidade. Este anjo de bondade foi arrebatado da Terra, instantânea e suavemente, em consequência de um ataque de paralisia. Singelas, porém decentes, foram as últimas homenagens prestadas à sua memória. O secretário da municipalidade foi à frente do cortejo fúnebre.

(Sociedade de Paris – 27 de dezembro de 1861.)

Evocação. — Ao Deus Onipotente rogamos nos permita a comunicação do Espírito Marguerite Gosse. 

— P. Felizes nos consideramos em poder testemunhar-vos a nossa admiração pela vossa conduta na Terra, e esperamos que tanta abnegação tenha recebido a sua recompensa. 
— R. Sim, Deus foi bom e misericordioso para com a sua serva. Tudo quanto fiz, e louvável vos parece, era natural.

— P. Podereis dizer-nos, para edificação nossa, qual a causa da humildade de vossa condição terrena? 
— R. Em duas encarnações sucessivas ocupei posição assaz elevada, sendo-me fácil a prática do bem, que fazia sem sacrifício, sendo, como era, rica. Pareceu-me, porém, que me adiantava lentamente, e por isso pedi para voltar em condições mesquinhas, nas quais houvesse mesmo de lutar com as privações. Para isso me preparei durante longo tempo, e Deus manteve-me a coragem, de modo a poder atingir o fim a que me propusera.

— P. Já tornastes a ver os antigos patrões? Dizei-nos qual a vossa posição perante eles, e se ainda vos considerais deles subalterna? 
— R. Vi-os, pois, quando cheguei a este mundo, já aqui estavam. Humildemente vos confesso que me consideram como lhes sendo superior. 

— P. Tínheis qualquer motivo de afeição para com eles, de preferência a outros quaisquer?
— R. Obrigatório, nenhum, visto que em qualquer parte conseguiria o meu objetivo. Escolhi-os, no entanto, para retribuir uma dívida de reconhecimento. É que outrora haviam sido benévolos para comigo, prestando-me serviços.

— P. Que futuro julgais que vos aguarda?  
— R. Espero a reencarnação em um mundo onde se não conheçam dores. Talvez me julgueis muito presunçosa, porém eu vos falo com a vivacidade própria do meu caráter. Além disso, submeto-me à vontade de Deus.

— P. Gratos à vossa presença, não duvidamos que Deus vos cumule de benefícios. 
— R. Obrigada. Assim Deus vos abençoe a todos, para que possais, quando desencarnados, gozar das puras alegrias que a mim foram concedidas.




Que a graça e a paz sejam conosco!